quarta-feira, 30 de julho de 2008

O Lixo - Luis Fernando Veríssimo

Gosto muito de Luis Fernando Veríssimo, como escritor, humorista e leio as sua crónicas sempre a sorrir, senão a gargalhar. Costumava acompanhá-las no Expresso e tenho alguns livros que reunem diversas crónicas e histórias que satirizam o quotidiano. Julgo que o humor é uma forma sublime de entendimento.
Aqui fica um texto retirado do seu livro "O analista de Bagé", apenas para partilhar uma leitura.

«O Lixo -
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.- No seu lixo ou no meu?»


In: http://portalliteral.terra.com.br/verissimo/porelemesmo/porelemesmo_lixo.shtml?porelemesmo

38 comentários:

Paulo Ventura disse...

Também sou um leitor prazenteiro do Luis Fernando Verissimo. Achei o conto que disponibilizas muito bom.
Abraços,
Paulo

Tiago Carvalho disse...

Vou colocar na minha lista. Obrigado

Caçadora de Emoções disse...

Paula,
Também gostei do conto :)
Vou estar atenta ao autor. Obrigada pela partilha.

Um abraço,

Luís Santiago disse...

Assim vale a pena ler. Um conto fantástico...

Jheny disse...

Nossa!gostei d+, fala sobre o lixo, de duas pessoas e que com o lixo podemos fazer varias coisas!nossa bakana mesmo...Parabens pra vc!nota 1000
bjuzxx

Anónimo disse...

Este conto é muito interessante.Afinal,todas as obras de Luis Fernando Veríssimo são maravilhosas! Parabéns pelo seu Blog!

Maria Nathália

Anónimo disse...

Com certeza, para caçadores de ótimas leituras não poderia deixar de fora do nosso projeto escolar essa maravilhosa cronica. agora sim, nosso grupo de leitores se completou tendo como base esse grande escritor!!!!!

Anónimo disse...

Ameiiii est texto!!!
Olha ñ é por falar não mais vc éé 1 bom escritor!!
Bom axeiii q fikou interessant o final!!!
rsrs
legall
um abraço!!!
Tenho 16 anos e adoreiii...........

Anónimo disse...

horrívl este textoo!!!!
ekkkoooooooo
tira isso daí q horror!!
Nuuum sabe nem escrever
.............
kk
eu sou d+++

viddda lokkka

Anónimo disse...

´p;ç,l pnmpç,

Anónimo disse...

´p;ç,l pnmpç,

Anónimo disse...

Fui a um sarau em Juazeiro-Ba e este texto foi um sucesso qndo encenado por dois atores.

Parabéns.

Anónimo disse...

ADOREI O TEXTO ACHEI BEM INTERESSANTE POR QUE ATRAVES DO LIXO ELES SE CONHECERAM,MAS PRO OUTRO LADO ELES JA SE CONHECIAM POR QUE UM VIA O LIXO DO OUTRO.ADOOOOOOOOOOOOOOOOGOOO KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

BRUNA LAIS disse...

ADOOOOOOOOOOOOOOREIIIII ESE TEXTO

BRUNA disse...

ADOREI SEU TEXTO , VIM HOJE NA SALA DE INFORMATICA E VI SEU TEXTO DO LIXO ADOREI MUITO ATRAVES DE TUDO ELES SE CONHESERAM PELO LIXO POR ISSO QUE EU ADOREI MAS AINDA SEU TEXTO EU E MINHA AMIGAS LEMOS MUITAS VEZES. THAL BJKS
BRUNA AAAAAAAAAAAAAAAADDDDDDDDDDDDDDDDD
GGGGGGGGGOOOOOOOOOOOOOO KKKKKKKKKKKKKKKK....

Jânua Munhoz disse...

Gostei muito do texto. Parabéns pela ideia de postá-lo em seu blog.
Até mais.

Jãnua Munhoz
Santarém/PA

erica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
erica disse...

Oi sou estudante de Pedagogia na uniesp em são roque periodo matutino,e usamos este texto como forma de teatro e foi muito legal,a classe toda e a professora gostou....

Erica Rodrigues
São Roque/SP
26/04/2012

Anónimo disse...

Meu nome é Edilson, estou no primeiro anos de Odontologia e meu preofesseor de português pediu essa leitura,achei maravilhoso o texto e como podemos descobrir muito sobra pessoa observando o seu lixo, vou me aprofundar mais nos textos e prosas de Luis Fernando Veríssimo!

sintia disse...

amooooooooooooooooooooor esta cronica ela e muito boa####################################### obeigado pelo espaço!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

tina_pimenta disse...

leio esse texto desde a minha infancia...sempre axei lindo....encontra- lo aki é demais parabens.....

Anónimo disse...

Bom Texto
hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah

Anónimo disse...

this is Sparta

Anónimo disse...

muito legal o ruim é estudala

mateus disse...

legal gostei

Anónimo disse...

goste muito pelas simpres coisas acabamos descubrido a vida do proçimo cuidado com seu lixo

Anónimo disse...

Perfeito. Muito interresante e reflexivo.

Anónimo disse...

cronica bacana!

nadya brenda disse...

muito bom o texto belo trabalho Luis Fernando Verissimo

Eliane Silva disse...

Gostei muito dessa Historia Minha escola Ta Estudando Sobre este Texto Achei Bem interresante S2

Joyce Trancy disse...

Minha crônica favorita!!

Marcos Vinicios disse...

Nossa ess crônica é muito boa

Cleber Bombas disse...

Alguém pode me ajudar nessa questão? 8) De acordo com a crônica, os elementos abaixo fazem com que cada personagem chegue a uma conclusão. Aponte a conclusão a que cada um chegou a partir dos elementos:
a) telegrama amassado:
b) carteira de cigarro amassadas:
c) vidrinhos de comprimidos
d) buquê de flores:
e) palavras cruzadas:
f) fotografia:

pensamento disse...


O texto acima era um dos capítulos do meu livro de oitava série de comunicação e expresão isso em 1989.... bons tempos... para mim claro....

Gabriela Santos disse...

Na travessão da última fala, está na penúltima linha, da fala "-no seu lixo ou no meu?" seria a fala do homem ou da mulher?

Frascinete Eugênia Romão Zacarias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Frascinete Eugênia Romão Zacarias disse...

Adoro esse texto! Já utilizei com meus alunos em um "Teatro de fantoches"...e foi um sucesso!

Unknown disse...

A palavra cruzada : por que ele morava sozinho e as palavras cruzadas era um passa tempo para ele....